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O que o tema da redação do ENEM 2023 tem a nos dizer?

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) é uma das avaliações educacionais mais importantes do Brasil. Realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o exame é utilizado como critério de seleção para ingresso em diversas instituições de ensino superior do país, além de ser uma importante ferramenta de diagnóstico da qualidade da educação no Brasil.


Os conteúdos e textos abordados no ENEM são base para o que será trabalhado nas escolas no ano letivo seguinte. O mesmo acontece com o tema da redação que, este ano, foi sobre “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.


O debate sobre o trabalho do cuidado, aquele que envolve atividades e responsabilidades realizadas por pessoas para cuidar de outras, sejam elas familiares, amigos, membros da comunidade, de forma gratuita, vem crescendo nos últimos anos, levantado, principalmente pelos movimentos feministas, uma vez que, numa sociedade capitalista, em que a divisão do trabalho se dá pelo gênero, o cuidar ainda é, massivamente, uma atividade da mulher.


Segundo a pesquisa mais recente, realizada pela Oxfam, no ano de 2020, as atividades que envolvem o trabalho não remunerado, como lavar, passar, cozinhar, cuidar de crianças e idosos equivale a cerca de 10,8 trilhões anualmente na economia global. Isso é o equivalente ao triplo do que produz, por exemplo, a indústria da tecnologia. E, se esse grupo de mulheres que exercem esse trabalho fosse um país, seria o 4º PIB (Produto Interno Bruto) do mundo, ficando atrás apenas de potências econômicas como Estados Unidos, China e Japão.


São cerca de 12,5 bilhões de horas de trabalho não remunerado por dia. Os números mudam quando fatores como raça, classe e identidade de gênero são somados as análises. A pesquisa aponta que 90% desse trabalho é exercido pelos familiares e em torno de 75% é realizado por mulheres. Logo, não há como falar de trabalho do cuidado, sem falar de luta por igualdade de gênero.


A filósofa e feminista marxista Silvia Federici tem, como tema principal de suas pesquisas, o trabalho do cuidado, o trabalho doméstico não remunerado e o trabalho materno. Ao abordar o trabalho materno, por exemplo, ela afirma que são as mães que sustentam o capitalismo. Não é o proletariado. São as mães que gestam, parem e criam as pessoas que irão formar o proletariado.


O capitalismo precisa das mães e do trabalho não remunerado delas. Imagina ter que pagar para criar pessoas que irão trabalhar de forma precária por um salário pífio? Não, né? E o que ele fez? Disse que as mulheres nasceram para serem mães, que essa é a principal razão das suas existências e as fez acreditarem que é amor o que, na verdade, é exploração.


Toda essa discussão em volta do trabalho invisibilizado realizado pelas mulheres tem recebido reconhecimento, levando a discussões sobre políticas públicas para apoiar, principalmente, as mulheres, principais cuidadoras. É preciso debater vagas afirmativas, redução da jornada de trabalho, auxílio financeiro, creches (públicas e privadas – ofertadas pelas empresas), instituições públicas para acolhida de pessoas idosas, entre tantas pautas que precisam caminhar para garantir melhores condições de vida. E este ser o tema da redação do ENEM é, sem sombra de dúvidas, uma porta para que as discussões sobre o trabalho do cuidado ganhem força, cada vez mais, na sociedade.


 

Texto escrito por Roberta Cavalcanti, Professora do curso de Pedagogia da FASUP e Mestra em Estudos de Linguagem pela UFRPE.


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